A história do Negroni: verdades e mitos

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James Bond tomou um Negroni, quando não estava afim de um Martini. Orson Welles ao experimentar pela primeira vez, em 1947, comentou: "O bitter é excelente para o fígado, o gin é ruim para a saúde. Um compensa o outro".

Origem

A origem de muitos coquetéis é sempre sujeita a debate, mas no caso do Negroni, ela é uma discussão bastante acalorada. Negroni é um nome de família muito antigo e que parece ter diferentes ramificações. Ou não, para alguns. Sem contar que há o orgulho francês e italiano em jogo.

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Turim

A versão mais popular diz que o Negroni deve sua origem a um aperitivo popular no norte da Itália no início do século vinte. Gaz Regan em The Negroni escreveu que "graças a Dom Costa, nós sabemos que o Negroni veio do Americano, o Americano foi baseado no Milano-Torino, e em compensação, o Milano-Torino era uma variação do Torino-Milano". O Milano-Torino, por acaso, tem o nome da região geográfica de origem de dois do seus principais ingredientes: partes iguais de Campari (de Milão) e Amaro Cora (de Turim).

Considera-se que o Milano-Torino foi inventado por volta de 1860 no Caffe Camparino, em Milão, cujo dono era Gaspare Campari. Ele ficou popular entre os norte-americanos que viajam o mundo, graças a um período de prosperidade de sua economia e preços baixos, graças ao câmbio favorável. Nesta época, eles pediam para colocar um pouco de club soda em seus Milano-Torinos, dando origem ao Americano.

Porém, tanto Dale Degroff em The Essential Cocktail e Anistatia Miller & Jared Brown em A Spirituous Journey consideram que o Milano-Torino já continha soda e teve seu nome alterado para Americano dado a nacionalidade de seus novos aficcionados. Há outras razões do porque o drink tem este nome, mas esta não é a história do Americano.

O Conde Negroni

Chegamos a 1919, quando um italiano nascido Conde Camillo Negroni, um notório picareta e frequentador assíduo do Casoni Bar (depois renomeado Caffé Giacosa), na rua Tornabuoni em Florença (Itália), um dia pediu um Americano mais forte. O bartender, Fosco Scarselli, atendeu substituindo club soda por gin e a nova combinação virou a preferida do Conde. Outros clientes do bar logo começaram a pedir "o drink do Conde Negroni" e assim o drink acabou ficando conhecido apenas por Negroni.

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Dizem que o famoso conde retornou a Florença quando começou a Lei Seca nos Estados Unidos, onde viveu como vaqueiro no velho oeste e apostador em Nova Iorque.

Dá dó detonar uma história tão interessante, mas o Coronel Hector Andres Negroni, no que se tornou um disco de uma música só, é enfático em negar a existência de um "Conde Camillo Negroni na árvore genealógica da família, que data do Século XI... o verdadeiro criador do coquetel Negroni foi o General Pascal Oliver Conde de Negroni". Ele fez esta afirmação na área de comentários da Amazon, sobre o livro de Luca Picchi Sulle tracce del conte. La vera storia del cocktail Negroni. Luca Picchi é o head bartender do caffé Rivoire na Piazza della Signora colado ao Caffé Giacosa e "conhece mais sobre a história do Negroni do que qualquer um" segundo Alice Lascelles em seu livro Ten Cocktails de 2015.

O Coronel não está sozinho em sua afirmação. Em um artigo chamado "New Evidence Negroni was Invented in Africa - Sorry Italy" publicado na Drinking Cup, ficamos sabendo que o General Pascal Oliver Conde de Negroni era um francês que lutou na Guerra Franco-Prussa em 1870 e, em uma noitada com os amigos, "introduziu ao Lunéville Officers Club sua própria criação de "coquetel à base de vermute", um drinque que hoje credita-se como a origem do Negroni". Parece que esse ramo da família Negroni é capaz de produzir cartas que suportam esta afirmação.

Provas Concretas

Como prova concreta do passado do Negroni, temos que considerar Gaz "finger stirring" Regan, que em seu The Joy of Mixology, afirma que a primeira receita impressa que ele conseguiu achar de "um dos melhores drinks do mundo" estão em duas publicações de 1955: The U.K.B.G Guide to Drinks compilado pelo United Kingdom Bartenders' Guild e Cocktail and Oscar Haimo's Wine Digest publicado em Nova York.

Andrew Willet, em seu blog Elemental Mixology usa como referência à criação o livro escrito em 1950 por Horace Suttons Footloose in Italy, "no livro ele sugere que dois drinks que ele achou que eram originários da Itália - o Negroni e o Cardinale". A versão de Sutton para o Negroni inclui seltzer (água carbonatada). A receita mais antiga que nós conseguimos encontrar foi a de Jacinto Sanfeliu Brucart em um livro de 1949 chamado El Bar: Evolución y arte del cocktail, cuja receita de Negroni leva ¼ gin, ¼ de vermute italiano e ½ de Campari. E, claro, há a famosa frase reputada a Orson Welles de 1947, que ele supostamente teria dito ao Coshocton Tribune, enquanto filmava Black Magic em Roma: "Bitters são excelente para o fígado. Gin é ruim para você. Um equilibra o outro".

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Orson Welles

O Camparinete e o Campari Mixte

Muito antes de qualquer referência escrita ao Negroni, há receitas impressas de coquetéis muito parecidos e um exatamente igual.

Doug Ford em seu blog Cold Glass diz "havia uma mistura com bastante gin com Campari chamado Camparinete desde o século XIX; eu não me surpreenderia se a Campari mudou as proporções, criou uma história plausível e o resto é conversa." Adoraríamos que Doug nos contasse a fonte desta receita.

Jim Meehan no seu The PDT Cocktail Book afirma que "a combinação de gin, vermute doce e Campari aparece em livros de coquetelaria espanhóis e franceses, como o de J S Brucart de 1943 Cien Cocktails e L'Heure du Cocktail antes de ser considerada um Negroni. O Camparinete em Cien Cocktails leva ¼ de Campari, ¼ de vermute italiano e ½ de dry gin. Sem decoração". Achamos uma referência mais antiga ao Camparinete (por isso utilizamos esta grafia e não Camparinette) no livro de 1934 escrito por Boothby World Drinks and How to Mix Them, onde a receita tem as mesmas proporções apresentadas em Cien Cocktail: ½ jigger de gin, ¼ jigger de vermute italiano, ¼ de jigger de Campari, servido com um twist de casca de limão.

Mas, a mais fascinante de todas, é a receita do Campari Mixte, que é claramente um Negroni, no L'heure du Cocktail publicado em 1929, que leva partes iguais de gin, Campari e vermute italiano com um zest de limão. Esta é a mais antiga referência a um drink com os mesmos ingredientes e em proporções iguais a um Negroni que conseguimos encontrar.

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O Boulevardier

A esta altura, vale dizer que dois anos antes um coquetel chamado Boulevardier, feito para Erskine Gwynne por Harry McElhone, no Harry's New York Bar de Paris, apareceu em seu livro de 1927 Barflies and Cocktails. Assim como Harry, Erskine Gwynne era um expatriado dos EUA, mas era sobrinho do magnata das estradas de ferro Alfred Vanderbilt e, mais importante para esta história, era o editor de uma revista mensal chamada The Boulevardier, daí o nome do drink. Com sua dose e meia de Bourbon, um shot de vermute doce e um de Campari Bitter, é um drink muito parecido com o Negroni, com uísque no lugar do gin.

Ou foi inventado nos Estados Unidos?

Só para jogar mais lenha na fogueira, Andrew Willet (Elemental Mixology) relaciona o Negroni com a receita de George Kappeler, criada em 1895, para um coquetel chamado Dundorado, que foi publicado no livro Modern American Drinks in Chicago:

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Andrew Willet diz que "Calisaya bitters era (e é novamente) também cinchona (quina) bitters - com Cinchona calisaya. Campari leva Cinchona officinalis. Calisaya é um pouco menos doce que o Campari. Tendo isso em mente, achamos que o Dundorado é muito parecido com o Camparinete, sendo as únicas diferenças o tipo de gin utilizado, qual a variante de cinchona e a proporção do bitters em relação aos outros ingredientes". Quem sabe.

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Receita de Negroni

De um vermelho forte, o Negroni consegue ser sofisticado e simples ao mesmo tempo, além de exigir um paladar apurado - para outros ele é apenas muito amargo. Ele tem um sabor complexo e desafiador, que o torna o aperitivo perfeito e, segundo ditado popular, é obrigatório na hora do aperitivo (equivalente a nosso happy hour) em Milão.

Assim como em nossa receita preferida de Negroni, a maioria das receitas pede que os ingredientes sejam misturados em partes iguais. Em seu livro de 2003 The Joy of Mixology Gary Regan afirma enfaticamente, "não tente outras proporções, o equilíbrio é da maior importância...e usar partes iguais de cada ingrediente é absolutamente fundamental para atingir a perfeição." Entretanto, em 2012 Gary tornou-se gaz e em Negroni a gaz regan notion ele afirma que "você pode bater no meu pulso e me chamar de Deborah se o drink não funcionar independente das proporções usadas." E ainda completa que "tendo a preferir por volta de 4 partes de gin para uma parte tanto de vermute doce quanto de Campari".

Não foi Deborah, mas sim Alice Lascelles que falou em seu Ten Cocktails, "se você quer se exibir, pode ainda alterar o equilíbrio da fórmula sem cometer um pecado mortal - apenas certifique-se de que a santíssima trindade de terroso/apimentado (vermute), agridoce/xarope (Campari ou outro bitter italiano) e forte/cristalino gin, vodka ou até mesmo blanco tequila vai funcionar - entretanto, eu acho gin a melhor opção"

Alguns desavisados pedem o Negroni batido, mas ele é, obviamente, para ser mexido. Mesmo assim, tem algo neste coquetel que não nos parece combinar com mixing glasses ou coadores, por isso preferimos montar nosso Negroni diretamente no copo com gelo e mexer. Talvez até mesmo seguir o exemplo de gaz Regan e simplesmente servir e mexer com o próprio dedo, a menos que esteja servindo alguém, claro.

Alguns bartenders servem Negroni straight up em uma coupe gelada. Neste caso, é preciso mexê-lo bastante com gelo, até atingir a diluição necessária para abrir todos os seus botânicos. Amargo e seco, mas muito saboroso, ele traz a profundidade do vermute, o equilíbrio agridoce do Campari e ganha vida através do gin.

A decoração do Negroni é sempre um twist de casca de laranja ou uma rodela. O uso de limão é crime hediondo, cuja pena é chupar o dedo que gaz Regan usa para mexer Negroni.

Variações

Como todo grande coquetel, o Negroni tem inspirado diversas variações:
Amber Negroni com conhaque no lugar do gin.
Bloody Negroni com suco de laranja vermelha.
Boulevardier Cocktail com bourbon no lugar do gin.
Cardinale com vermute seco.
Charente White Negroni gin, conhaque, suze e lillet blanc.
Cornwall Negroni forte no gin e com orange bitters.
Dutch Count Negroni com genever no lugar do gin.
Kingston Negroni com rum no lugar gin.
Mezcal Negroni com mezcal no lugar gin.
Negroni and the Goat com diferentes licores aperitivo.
The Munich Negroni Western Style com licor de avelãs.
Negroni Sbagliato com dois shots de vinho espumante.
Negroni Spumante completar com vinho espumante.
Negroni Tredici forte no gin e com Cynar.
Orange Negroni com vodka sabor laranja.
Parma Negroni com suco de grapefruit rosa, xarope simples, bitters e água tônica.
Peroni Negroni com cerveja lager.
Rhubarb Lucca Negroni com licor de ruibarbo.
Scotch Negroni whisky no lugar gin.
Sicilian Negroni Cocktail com laranja vermelha no lugar do vermute.
Unusual Negroni Cocktail com Aperol e vinho branco aperitivo.
White Negroni gin, Suze e Lillet Blanc.

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