Bartenders em Casa - Gabriel Ribeiro

Escrito por Gabriel Ribeiro

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Olá, meu nome é Gabriel Ribeiro e convido toda a comunidade de bartenders a enxergar mais longe, mirando o que está mais próximo a cada um de nós!
Bartender há 2 anos, promovo a coquetelaria com ingredientes locais na Serra da Mantiqueira, sua identidade territorial e o localismo (conceito que preza por um pensamento global através de ações e valores locais), como elementos de diferenciação aplicados à coquetelaria. Assino a carta de coquetéis do restaurante Moringa Mantiqueira, em Campos do Jordão, baseada em insumos produzidos por artesãos da região. Gastrólogo e estudioso de bebidas, integro o projeto @saberesdamantiqueira, trabalhando com pesquisa, mapeamento, imersão e networking de pequenos produtores familiares em cidades no entorno do rio Sapucaí Mirim, valorizando saberes e fazeres locais e integrando os produtores ao mercado local.

Apresentarei a vocês, em 4 doses bem servidas, uma nova perspectiva sobre coquetelaria da qual eu nomeei “Do Campo à Barra”. Saúde!

SAIDEIRA – COM CHORO
Do Campo à Barra: a importância do pequeno e a missão do Bartender

Despeço-me concluindo com uma saideira abordando últimos conceitos e práticas importantes, atreladas aos demais ideais que completam meu pensamento de coquetelaria apresentado aqui desde o primeiro conteúdo, valores que prego e considero essenciais no que fazemos, dentro da minha perspectiva de missão do bartender, não só atrás da barra, mas principalmente fora dela.
Nessa última oportunidade e privilégio de escrever para essa plataforma, que sempre serviu e servirá de referência em conteúdo de coquetelaria, encerro minha participação agradecendo imensamente aos que tornaram essa iniciativa e tudo isso possível:
@jackdanielsbrasil, @woodfordreserve, Marcelo Sant’Iago, Difford's Guide Brasil, meu muito obrigado!

Como visto anteriormente, a identidade territorial diferencia e protege marcas e agrega valor cultural, econômico, político e social a produtos e serviços, reforçando a imagem de qualidade e ajudando a valorizar o território, o que atrai turistas e investidores. A imagem positiva do território, por sua vez, valoriza os produtos e os serviços de determinado local, estabelecendo um ciclo virtuoso para a região e a comunidade. Assim, produtos com identidade territorial podem ser apresentados ao mercado como globais (desde que competitivos com os concorrentes globais) e locais (estabelecendo valores de confiança, proximidade e pertencimento), apresentando o que os especialistas chamam de duplo branding.
Fazer branding é realizar o conjunto de atividades que se destina exclusivamente à gestão de uma marca, atuando desde a concepção o produto (fundamentada em pesquisas e análises mercadológicas) e ao longo de sua vida no mercado, procurando valorizar ou corrigir as inevitáveis etapas de seu ciclo de vida, de lançamento, crescimento, estagnação e declínio.
A rede internacional do movimento slow food é um clássico exemplo de duplo branding, porque se mobiliza para valorizar a identidade territorial de produtos na escala local e influencia e apoia a implementação de boas práticas na alimentação em âmbito global – em muitos países, gerando políticas públicas nacionais de grande importância.
Inspirado no Negroni, porém buscando um perfil com notas de chocolate, sem fugir das características desse clássico, nasce o Bean to Bar. Remetendo também às barras do ofício de bartender.

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Bean to bar
30ml Jungle Gin (Camanducaia-MG)
30ml Vermute Aureah Rossa Reserva (Jundiaí-SP)
30ml Cerveja Avós Baltic Porter Wood Aged Negroni (São Paulo – SP)
Finalizado com zest de tangerina e
Chocolate Caiçara – chocolate 75% cacau selvagem de Ubatuba – Serra do Mar (SP), @umadocerevolucao (Santo Antônio do Pinhal-SP)
Short drink. Servido on the rocks, vermute e gin misturados primeiramente, completado com a cerveja em seguida, levemente mexido e finalizado.
Criado em São Francisco, Califórnia, o termo Bean to Bar significa, em uma tradução livre : “da amêndoa do cacau a barra de chocolate”. No bean to bar o artesão é o responsável diretamente por todas as fases de fabricação da barra de chocolate. Começando com a seleção da fava de cacau, da torrefação, descasque, moagem, mistura, conchagem, moldagem e revestimento. Nesse modelo de produção é que foi inspirada a ideia do coquetel.

Cabe a quem produz e oferta, no caso os artesãos primeiramente, e também os profissionais de bar e da indústria de bebidas, que estão na outra ponta da cadeia em maior contato direto com o consumidor final, transmitir essa percepção de valor agregado ao produto ou serviço com características locais. Um dos recursos mais interessantes para comunicar essa percepção de valor ao público consumidor é o storytelling.
O storytelling é uma estratégia de comunicação empregada através da arte de contar histórias – preferencialmente verdadeiras, sinceras e humanas. Narrativas comoventes e interessantes. Uma boa história é aquela que atrai o leitor por alguma razão, que estabelece uma intimidade que ele não encontra em outros locais. A técnica tem um forte apelo emocional e pode gerar mensagens mentais importantes ao receptor, se realmente apresentar o produto ou serviço de maneira inteligente, verdadeira e familiar.
Poucos percebem a riqueza potencial de se valorizar as características peculiares. Identidade vale dinheiro. Investir no valor da identidade territorial de um produto ou serviço é inovador e desafiador, somada à capacidade de despertar lembranças positivas relacionadas à um ambiente de valor ao consumidor. Em termos de marketing a simbologia relacionada à identidade é ponte para decisões de compra. A força de memória emocional do produto local.
Reconhecer a importância do pequeno produtor e do produto artesanal na cadeia produtiva é essencial a todos nós. A missão do bartender é compreender sua posição, enxergar a bebida como um alimento e conhecer como cada elemento que é servido no copo é produzido, por quem, a matéria prima e onde é feito. Para finalizar uma homenagem ao Dia Mundial do Coquetel e a esta iniciativa que me foi proporcionada.

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The New Vintage Whiskey Cocktail
70ml Jack Daniel’s Tennessee Whiskey
30ml Xarope de Rapadura dos Coqueiros (2:1)
5 dashes de bitter de catuaba com própolis @meliponas_da_mantiqueira
Short Drink. On the Rocks. Mexido e finalizado com twist de laranja e
Camapu @amoras.carol.sap (Santo Antônio do Pinhal-SP)

Bebericamos das seguintes fontes para produzir este conteúdo final:
“Arca do gosto no Brasil”, @slowfood.brasil
Associação Bean to Bar Brasil – @beantobarbrasil
Projeto Saberes da Mantiqueira – @saberesdamantiqueira
E por último e não menos importante, o livro de cabeceira:
“O valor global do produto local”, do autor Rogério Raupp Ruschel

Espero plantar as sementes do pensamento local e artesanal em cada um que cruzar minha jornada, e que todos possamos colher desses frutos juntos num futuro próximo. Tem muito artesão bom mais perto do que você imagina, talvez seja preciso olhar menos distante.

Saúde e que nunca nos falte!

UMA DOSE ADICIONAL
Do Campo à Barra: posicionamento global através do produto local

Olá pessoal, nessa terceira oportunidade, de modo introdutório, reuni alguns elementos importantes não só para quem está no dia a dia atrás de um balcão, mas também para aqueles que pretendem produzir ou já estão produzindo tantos novos lançamentos no cenário de bebidas nacionais e outros insumos empregados em nossos coquetéis, que nos permitem uma maior oferta de matéria prima nativa. Fica aqui meu agradecimento a todos artesãos e empreendedores envolvidos de alguma maneira com a coquetelaria. Saúde!

Alimentos e bebidas ligados a uma origem territorial que os torna típicos, diferenciados e inimitáveis, geralmente são considerados portadores de uma vantagem competitiva, que realmente pode atribuir preços aos produtos com maior valor agregado. Em alguns mercados de bebidas, como os vinhos, brandies, cachaças, tequilas, whisk(e)ys e licores, o território é certamente o principal componente de identidade. Por isso a importância de se enfatizar o vínculo entre suas produções e o lugar de origem dos produtos. Por que não valorizar isso em coquetéis?
Os produtos assumem então o papel de ícones da ruralidade e estabelecem uma ponte entre o homem urbano e seu território de origem.
O melhor produto final é aquele que consegue demonstrar maior conexão emocional do consumidor com a recompensa oferecida pelo produto – mesmo que seja irreal ou intangível. Um produto planejadamente global, desenvolvido para ser uma commodity com marca, na prateleira, definitivamente não foi desenvolvido para oferecer isso como um produto desenvolvido com um pensamento de âmbito local e é aí que estão grandes oportunidades de competição para um produto com identidade local.
Quanto mais global for uma atividade, mais características locais ela precisa incorporar, para se aproximar do consumidor que pode até comprar globalmente, mas vive em um ambiente local. O local determina como os consumidores interagem com um produto ou marca. As relações entre clientes e lugares afetam de forma profunda a estratégia de marketing. As pessoas ainda valorizam a importância do toque físico, do serviço personalizado, da familiaridade e do toque local.

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Búfalos Milk Punch
Cachaça Doce Paixão @cachacaexcelencia (Passa Quatro-MG)
Cachaça Rebuliço, alambicada na própria fazenda
Leite fresco de búfala @bufalosnamontanha
Tomarilhos amarelos e mix de cítricos da fazenda
Licor de rosas (Dona Elza, Doces Cantagalo – São Bento do Sapucaí-SP)
Adoçado com melado de cana dos Coqueiros (Paraisópolis-MG)
Infusão de especiarias (flor de vinagreira, cardamomo e semente de coentro) e casca dos cítricos
Long drink, coado lentamente em coador de queijo de pano, com leite aquecido. Servido gelado.
Com insumos à disposição, qualquer ambiente pode se tornar uma “barra” e um excelente laboratório. Um Milk Punch não clarificado, preparado durante uma imersão com o Projeto @saberesdamantiqueira a produção artesanal e familiar de queijos e laticínios de búfala, numa fazenda em Paraisópolis, em meio à Mantiqueira de Minas.

Como você se projeta e projeta seu produto ou serviço no mercado?
Ocupar os primeiros lugares na mente do consumidor, é fundamental em qualquer esforço de marketing. E, para fazer isso, o produto tem de demonstrar relevância em algum aspecto no qual seja mais competitivo do que seus concorrentes. Posicionar um produto é mostrar para seu público-alvo qual é a diferença entre você e seus concorrentes, para isso é preciso saber quem somos, o que temos de único e como queremos ser vistos. Em termos psicológicos, o posicionamento de uma marca é consequência do modo como é vista pelo consumidor em comparação às outras marcas.
Identificar e explorar uma oportunidade ou benefício para o consumidor que não estejam sendo oferecidos com destaque pelos outros produtos já existentes – ou oferecer vantagens em relação a quem já o ofereça. Isso se faz com pesquisa nos recursos do próprio produto e nas ofertas do mercado. O posicionamento pode ser feito de maneira explícita (expondo de maneira verdadeira e objetiva); inclusiva (relevante para a comunidade); exclusiva (diferenciais inimitáveis).
A diferenciação de um produto com identidade territorial pode se dar no contexto da inovação, mas é especialmente expressivo quando relacionado a mitos, sonhos e experiências pessoais do consumidor, relacionando-o comum produto de sabor local. A qualidade de um produto com identidade territorial pode até mesmo ser menor do que a de seus concorrentes globais, mas se amplia emocionalmente com a capacidade de reproduzir lembranças positivas relacionadas a um ambiente de valor ao consumidor.
A importância do sentido de pertencimento de uma pessoa a um local. Saber que todos os negócios são locais nos convence não apenas da necessidade de uma sensibilidade local, mas também do enorme valor competitivo que um sentido de lugar pode confiar a marcas ambiciosas.
Enquanto produtos globais requerem comunicação consistente e massiva, a comunicação de produtos com identidade territorial pode utilizar recursos como lembranças do passado ou associar o produto a momentos de prazer e alegria. Um dos mais interessantes caminhos para essa comunicação é o storytelling, um dos tópicos que abordaremos no próximo artigo.

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Mind Julapy
Cachaça Excelência Carvalho 8 anos
Hidromel Brandina @vinicolavillasantamaria (São Bento do Sapucaí-SP)
Folhas de menta @herbanario_sitioquintal (Santo Antônio do Pinhal-SP)
Hortelãs do quintal
Adoçado e balanceado direto do topo da serra de Campos do Jordão com:
Mel cítrico de abelha mirim nativa e extrato de própolis verde @meliponas_da_mantiqueira
Montado e mexido, servido com canudo não agressivo à biodiversidade.

“O marketing não é uma batalha de produtos, é uma batalha de percepções”. Frase de Al Rie, criador do conceito de posicionamento.

Fontes bebidas para a produção deste artigo:
“Todos os negócios são locais”, John A. Quelch & Katherine E. Jocz
“O valor global do produto local”, Rogério Raupp Ruschel

Semana que vem tem saideira com muito conteúdo.

Saudações e que nunca nos falte!

SEGUNDA DOSE
Do Campo à Barra: De onde vem o que você bebe e está no seu copo? É possível saber?

Um novo olhar sobre o que você consome e serve, aplicado à coquetelaria.

Nesse segundo trago, vamos observar através de 3 coquetéis com abordagens diferentes como conhecer o berço do que é misturado e é servido nos copos da sua barra pode mudar a maneira como você pensa sua coquetelaria. Aprecie lentamente a leitura em 3 goles.

1) O local de origem é algo que vai além das relações geográficas, podendo ser um sinalizador de status social ou profissional. O lugar de nascimento faz parte da identidade, por isso a procedência do produto pode nos dizer algo relevante sobre o produto em si, ou pode oferecer pontos de referência para se iniciar um contato com o consumidor. Exemplo: a personalidade esperada para um rum jamaicano ou a potência alcoólica e o visual de um coquetel Tiki.

A ligação com o lugar desempenha forte papel na identidade própria e cultural do produto. Certas categorias de produtos ou marcas estão inevitavelmente associadas a determinados territórios, o que se torna parte de sua identidade. Estas associações acontecem por uma série de razões e podem ser utilizadas estrategicamente em benefício de seus produtos e serviços, aproximando percepções positivas ou afastando negativas.

A herança cultural é um recurso imprescindível no desenvolvimento do turismo e da economia de lugares. Nesse contexto, a história e o patrimônio se unem à exploração de territórios, natureza e espaço agrícola, com usos e tradições seculares, que foram criando testemunhos materiais e imateriais que hoje atestam as vivências das paisagens e das suas populações. As diferentes camadas culturais temporais acumuladas sobre um lugar permitiram construir identidades, tornando os espaços diversos, diferentes. Distintos “espíritos” que conferem alma diferenciada aos vizinhos.

MARTINI GUARANI
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Um drink inspirado na memória cultural de uma comunidade e sua identidade local.
30ml Gin High Mountain London Dry @alquimistasdaserra (São Francisco Xavier-SP)
70ml @aryawines vinho fino branco seco de lata (Serra Gaúcha-RS)
20ml vinho do Porto Tawny

Guarnecido com pinhão em conserva, Pinha Pinhões (Campos do Jordão-SP), molhado em gotas de azeite @casamantiva extraído com lima da Pérsia (Consolação-MG)
Aromatizado com borrifadas de hidrolato orgânico de Cambuci, Sítio Guaçatonga (Pindamonhangaba-SP)
Mexido e servido como um bom Martini.

Inspirado nas influências dos povos guaranis e portugueses na cultura caipira, presentes na Mata Atlântica, e em símbolos da Mantiqueira. Uma versão no que chamamos de Reverse Martini, do clássico Dry Martini, onde as proporções de gin e vermute seco invertem-se, tornando o drink menos seco. Aqui substituí o vermute por um vinho fortificado, somado ao vinho branco buscando a identidade de um Martini.

2) A identidade territorial é o conjunto de características e elementos que associa um produto ou serviço a determinado território e o diferencia de outros similares, de maneira competitiva, como parte de um posicionamento diferenciado ou exclusivo. Comunicar o local de origem agrega valor ao produto ou serviço. Tradições, saberes e fazeres de um povo. Se expressa primeiramente pelo espaço geográfico do território ocupado, mas também pelo espaço simbólico do território.

A associação de um produto ou serviço à identidade territorial pode ser feita por:
• Indicação geográfica (exemplos: o café da Mantiqueira de Minas, do Brasil, ou o Singani, destilado de vinhos de Moscatel fresco, boliviano da região de Potosí);
• Metodologia de produção (exemplos: nossa cachaça, com graduação alcoólica de 38 a 48%, a 20°C, obtida pelo mosto de cana de açúcar, ou dos vinhos de colheita de inverno produzidos na Mantiqueira, e do Parmesão da Mantiqueira, produzido com leite não pasteurizado);
• Matéria-prima (exemplos: tequila – de agave azul, México, ou o lúpulo da variedade Mantiqueira, primeiro de variedade brasileira e a rapadura do bairro dos Coqueiros, obtida do caldo de cana puro e nada mais).

Assim, além de diferenciar, qualificar e proteger os produtos, a identidade territorial agrega valor cultural, econômico, político e social a esses produtos e serviços.

DESJEJUM CAIPIRA
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50ml Cachaça 3 madeiras @engenhodamantiqueira (Gonçalves-MG)
infusionada em banha de porco @delveneto (Jambeiro-SP)
50ml Suco de milho da feira de Santana (São José dos Campos-SP)
30ml float de café de rapadura dos Coqueiros, @zalazbrasil (Paraisópolis-MG)

Guarnecido e harmonizado por sotaque com:
Parmesão da Mantiqueira (6 meses de maturação), @oqueijeiromantiqueira (Alagoa-MG)

Pick-Me Up, batido e servido em copo baixo com uma pedrona de gelo.

Inspirado na culinária caipira, de uma cultura de subsistência rural, que tem o emprego constante e de amplo repertório do milho e seus derivados e a predileção pela carne suína em relação à bovina. Como não se conhecia a produção de manteiga, era usada a gordura que escorre do toucinho frito. Assim o dia começava como um primeiro contato com dois alimentos básicos: o milho e o porco.

O hábito de tomar café se generalizou à sombra do desenvolvimento dessa cultura agrícola. Em todas suas formas o açúcar era adicionado na preparação ou no bule, nunca no copo ou na xícara. Pra finalizar, o queijo, mantimento bem presente no cenário caipira, um Parmesão da Mantiqueira, de sabor salgado acentuado e aroma de leite e gordura acentuados com a maturação. Produzido nas terras altas da Mantiqueira, na cidade de Alagoa. Produto fabricado artesanalmente em pequena escala, com leite cru, leite de verdade.

A busca por uma conexão cultural através do drink, uma nova velha combinação que traz a lembrança de um sabor familiar, de antigos hábitos que ainda perduram de maneira sucinta e sobrevivente, uma emoção extra, além da proporcionada pelos sentidos à cada gole.
Quanta história cabe dentro de um copo?

3) Terroir é uma terminologia francesa criada para auxiliar a avaliação e denominação de vinhos, mas que pode ser utilizada para outros produtos. A palavra deriva do latim vulgar terratorium, que por sua vez é proveniente do latim clássico territorium. Na geografia francesa, terroir é um conceito cultural e identitário, referente ao conjunto de terras exploradas por uma coletividade rural, constituída por relações familiares, tradições comuns e laços de solidariedade. Para os franceses, o terroir, mais ainda do que o território no qual está “assentado”, é um patrimônio inigualável.

O conceito de terroir, oficialmente definido (Organização Internacional da Vinha e do Vinho – OIV) se refere a um espaço sobre o qual se desenvolve um saber coletivo de interações entre um meio físico e biológico identificável e as práticas vitivinícolas aplicadas nele, que conferem características distintas aos produtos originários desse espaço...incluem tipologia de solo, topografia e sua orientação solar, clima, regime de chuvas e ventos, paisagem e biodiversidade. Por todos esses aspectos associados à herança cultural da comunidade, às características organolépticas específicas do terroir, às características da uva e da indicação geográfica do vinho é que a bebida é protagonista de tantos interesses.

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Para exemplificar, vamos desconstruir o drink da imagem acima, mapeando a procedência dos ingredientes. O emprego de insumos locais e regionais, já é uma realidade cada vez mais presente no ambiente gastronômico e uma tendência na cena da coquetelaria. A valorização do produto local estabelece um ciclo virtuoso para a região e a comunidade, integrando os produtores ao mercado local.

Cachacito de Physalis
Cachaça tradicional @alambique_goncalves (12,2 km)
Limão Cravo do bairro
Geleia de hortelã @a_senhora_das_especiarias diluída em suco de limão (7,7km)
Cerveja Physalisour @cervejaria3orelhas, Berliner Weisse com physalis (12,8 km)

Finalizado com folhas de hortelã da horta (restaurante Sauá)
Long drink. Macerado e montado como um Mojito, servido em copo longo de cerveja.

Consideraremos o marco zero desse breve estudo o local onde o coquetel foi produzido, ofertado e consumido, como ponto referencial. Nesse caso o Restaurante Sauá, localizado no bairro Sertão do Cantagalo, a quase 8 km do epicentro da cidade de Gonçalves. É importante atentarmos ao fato do restaurante não estar numa posição centralizada e não tão favorável, em termos de acessibilidade, se compararmos a outros estabelecimentos no próprio município, posicionados em locais mais privilegiados, do ponto de vista deste estudo, considerando logística e distribuição. Contudo, se olharmos de uma maneira macro para o coquetel, todos os insumos são produzidos nos limites do município, sendo que o produtor mais distante está a menos de 13 km do marco zero. *(O limão utilizado é fornecido por um morador que produz no próprio bairro do restaurante.)

Seria exagero dizer que o drink possui o terroir de Gonçalves? Mais sensato é que ele possui a cidadania e o DNA dos que produzem por lá. E que poderia ser replicado por qualquer um na cidade, considerando a fácil rastreabilidade e acesso aos insumos.

Para entender um pouco mais sobre o contexto Gonçalvense, seguem referências:
http://degustavale.com/2017/05/10/polo-de-alimentos-organicos/
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/mg/goncalves/panorama

Para a produção deste artigo bebemos das fontes:
“A cozinha caipira da Paulistânia”, Carlos Alberto Dória & Marcelo Corrêa Bastos
E por último, o livro de cabeceira: “O valor global do produto local”, do autor Rogério Raupp Ruschel

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Compartilhe a ideia e fortaleça a causa, usando as tags abaixo quando estiver aí com seu trago que ajuda alguém que produziu perto de você a prosperar e botar pão na mesa.
#docampoabarra #farmtobar #socialbartending #drinklocal

ABRIDEIRA
Do Campo à Barra: uma imersão ao ingrediente e a terra

Atualmente desfruto do privilégio de viver em meio ao território da Mantiqueira, que proporciona e oferece tamanha riqueza de maneira tão acessível para aqueles que vislumbram essa oportunidade e apreciam o valor do que vem da terra e do que é produzido com identidade de maneira autêntica e artesanal, como um destilado que se traduz no “espírito” de quem o alambica.

A Serra da Mantiqueira, cadeia montanhosa que inicia na região bragantina, se estende pelo Vale do Paraíba, atinge o estado do Rio de Janeiro em menor proporção, comparada à sua presença em Minas Gerais e São Paulo, foi eleita por um estudo publicado na revista Science em 2013 como o 8º local de área protegida mais insubstituível do planeta, devido à riqueza de todo seu ecossistema e biodiversidade. Somado a isso, hoje já é reconhecida pela qualidade dos seus vinhos, azeites, cafés, queijos entre muitíssimas outras joias produzidas em seu território.

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Considerando todos esses elementos apresentados e como empregá-los de maneira estratégica na Coquetelaria, é importante entendermos alguns conceitos que serão ferramentas essenciais na aplicação desse novo olhar à barra.

LOCALISMO
O localismo é um termo utilizado para expor a ideia de um conjunto de tendências relacionadas com os valores locais. Mas, de maneira mais ampla, descreve uma gama de filosofias políticas que apoiam a produção e consumo de bens do local (como o slow food), o controle local do governo, o comércio justo, a justiça global, a preservação ambiental local, o tribalismo, a promoção da história, da cultura e da identidade locais. O localismo é tipicamente um raciocínio que apoia o duplo branding: a escolha é pelo local, mas o valor da escolha, a ação resultante, tem impacto global.

IDENTIDADE TERRITORIAL
A identidade territorial é um patrimônio econômico e cultural, empresarial e comunitário muito precioso e pouco empregado. Comunicar o local de origem, a valorização da origem regional faz parte do DNA de um produto. Um recurso valioso e estratégico a ser descoberto, é uma poderosa ferramenta que agrega valor ao produto e favorece a construção de mercados, e oportuniza a construção de marcas duradouras e de sucesso, com profundas bases psicológicas.
Além disso promove desenvolvimento sustentável de base local, gerando empregos, atraindo talentos e oportunidades de negócio, uma economia mais sustentável e com desenvolvimento socioeconômico. Gestores de marcas de produtos com identidade territorial podem usar de maneira inteligente os diferenciais dos produtos em si, ao mostrar seus benefícios e desempenho tão bons quanto seus similares globais, se existirem. Somados aos benefícios de pertencimento comunitário ao território do qual procedem – e que são exclusivos. O produto está capacitado a competir com os estrangeiros globais e ainda tem uma vantagem: é feito aqui, é do local.

LOCAVORISMO
O locavorismo baseia-se no consumo dos produtos locais, diminuindo-se assim a distância percorrida até o consumidor. Atitude consciente e sustentável, contribui na diminuição de gases poluentes no transporte, socialmente positiva pelo apoio a pequenos produtores e estímulo à economia local, e nutricionalmente favorável, alimentos mais frescos possuem mais nutrientes. Além disso, pequenos produtores tendem a respeitar mais a sazonalidade e utilizar menor quantidade de adubos químicos e agrotóxicos, favorecendo o equilíbrio do ecossistema local e a saúde de quem consome.
A utilização desses conceitos como ferramentas no dia a dia do bar permite difundir e criar sua marca através do patrimônio e marketing territorial, aliados à diferenciação de um produto padronizadamente global e um produto com identidade local.
Inspirado no conceito farm to table (da fazenda à mesa), movimento nascido nos EUA e tendência atual na gastronomia, que preza pelo alimento fresco e uma menor cadeia de fornecimento, resultando num ganho real de qualidade e sabor ao insumo. Assim surge o nome Do Campo à Barra, baseado na minha visão sobre coquetelaria e em tudo que eu acredito, desenvolvidos ao longo do meu trabalho atrás e fora do balcão. Sem utopia. Ideias e soluções reais, com ações implementáveis no cotidiano do seu bar.

Para ilustrar tudo que foi dito até aqui, um drink composto somente por insumos produzidos na Mantiqueira, desde os destilados até as frutas e elementos adoçantes.

RABO DE GALIZÉ
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30ml @cachacaexcelencia Castanheira (Passa Quatro- MG)
40ml @cachaca_tie Prata (Aiuruoca-MG)
50ml infusão de casca de Tomate de Árvore (Campos do Jordão-SP)
25ml shrub artesanal de Jabuticaba com açúcar Mascavo dos Coqueiros (Paraisópolis-MG)
1 colher de bar de geleia de Café @a_senhora_das_especiarias (Gonçalves-MG)
Finalizado com twist de Limão Caipira
Short drink. Batido, coado e servido on the rocks.

Refletir sobre o modo como utilizamos nossos alimentos deve ser uma constante e é interessante reparar que todos elementos que compõem o coquetel passam por processos de conservação, preservando o caráter de suas matérias primas, escolhidas pontualmente para fazer um coquetel aveludado e com o perfil sensorial de um Rabo de Galo, a partir de ingredientes não convencionais para o que conhecemos desse clássico.
Interpretação do grande clássico nacional Rabo de Galo com insumos produzidos na serra e que representam e valorizam a riqueza do bioma Mata Atlântica. A geleia traz um sutil dulçor defumado, que se complementa à leve acidez do shrub e à textura e amargor presentes, agregados pela infusão. O sabor e a pungência da Castanheira, combinada ao frescor de uma cachaça branca muito bem-feita completam a experiência de maneira prazeirosa, convidando para o próximo gole!

Para a produção deste artigo bebemos das fontes:
“O valor global do produto local”, do autor Rogério Raupp Ruschel
@matonoprato

Nos vemos num próximo gole, onde aprofundaremos um pouco sobre o que bebemos e de onde vem o que está no nosso copo, é possível saber?

Até a próxima e que nunca nos falte! Saúde!

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