Lugar de mulher é atrás do balcão. E onde ela quiser.

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Há nem tanto tempo assim, era quase inimaginável uma mulher construir sua carreira – e brilhar – fazendo coquetéis atrás do balcão. Felizmente algumas coisas mudam.

A vida em bares nos anos 80 era dura para as poucas brasileiras que se arriscavam na coquetelaria. Era o caso da bartender Sandra Mendes, referência para a geração feminina atual. “Tinha grande resistência. Mulher que trabalhava à noite não tinha o mesmo respeito”, lembra a profissional radicada no Rio de Janeiro.

O mundo mudou deu muitas voltas – e avançou – desde então. E os frequentadores dos balcões passaram a ver, cada vez com mais frequência, mãos femininas preparando drinks com maestria. Algumas bartenders voaram alto e se tornaram expoentes da coquetelaria brasileira.

É o caso de Talita Simões, que fez seu colchão de aprendizado em bares e restaurantes de Londres. De volta ao seu país, estudos e muito trabalho. Foi chefe de bar do hotel Unique no início dos anos 2000, sócia de casas como a At Nine. Formulou a primeira carta brasileira de martinis em 2004 no Gabriel, que ficava nos Jardins, em São Paulo.
Naquela época, desenvolvia um trabalho fora do padrão em hospitalidade. Deixava o balcão e circulava entre as mesas indicando drinks e explicando todas as nuances para a clientela. Era uma sommelier de coquetéis. Chamava a atenção pelo atendimento e pelo conhecimento.

Mais recentemente, aprimorou a relação entre drinks e gastronomia (harmonizações ainda são raras por aqui) ao assumir o balcão do Side, no Itaim Bibi. Atualmente, além de consultorias, toca o Biri Nait, bar em Pinheiros.

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Talita Simões

Uma nova geração

Talita foi a porta de entrada na profissão, diretamente ou por inspiração, para várias meninas. Como a paulista Jessica Sanchez, ex-estudante de História que resolveu trocar um futuro acadêmico pela arte das misturas. “Não gostei do curso e acabei trabalhando como garçonete. Depois virei sommelier e, após um treinamento de bar, investi na carreira”, conta.
A vida no bar começou em eventos. “Era legal ter menina no balcão, mas na balada. Puramente estético. Tinha restaurante que não me aceitava por eu ser mulher. Diziam que o trabalho era pesado.” Pior: no início, mesmo nas festas, Jessica era impedida de fazer drinks. A função feminina era lavar a louça. “Desenvolvi uma técnica para lavar tudo muito rápido. Então sobrava tempo e eu arriscava um coquetel.”

O primeiro emprego que a deixou empolgada foi no paulistano The Sailor. Após uma entrevista, Jessica foi contratada justamente por Talita Simões, que fazia a consultoria do lugar.
O mundo então se abriu para Jessica, que resolveu expandir suas fronteiras. Fez as malas e rumou para a Europa com um objetivo bastante claro: desenvolver sua técnica e conhecer o maior número possível de bares. Foram oito meses de jornada e 71 estabelecimentos visitados.

“Minha ideia ao voltar para abrir uma escola de coquetelaria e um bar. Algo muito bem planejado para entrar na lista dos 50 melhores do mundo”, conta.

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Jessica Sanchez

O plano, misto de audácia e confiança, foi temporariamente abortado após um convite para cuidar das cartas dos bares e restaurantes do Copacabana Palace, no Rio. Ganhou experiência e notoriedade. E viu o machismo arrefecer. “Isso é cultural. Temos uma sociedade patriarcal. Não vejo como um machismo premeditado”, avalia.

Após quase dois anos de Copacabana Palace, Jessica decidiu voar novamente: presta consultoria para uma série de restaurantes, cuida da nova fase dos bares do Tivoli, em São Paulo. Segue com a ideia de entrar para a lista dos 50 melhores bares. E criou uma nova visão para a relação homem-mulher na coquetelaria.
“Hoje pouca gente estranha quando me vê no balcão”, diz. “Quer saber o que me incomoda? Ainda existe quem quer me contratar só pelo fato de eu ser mulher. Por marketing”, diz.

Conhecimento e esforço

Adriana Pino (na foto no alto da página), até recentemente titular do MéZ, em São Paulo, é outra mulher que vem rompendo com o cinturão masculino nos balcões. “Já me contrataram pela aparência. Sei que ainda rola isso com algumas meninas. Hoje passaram a me conhecer pelo conhecimento e pelo esforço”, resume a bartender que acumula 13 anos de experiência.

No início eram festas e eventos noturnos. Como Jessica Sanchez, teve um momento como garçonete – no caso de Adriana no hotel Unique, em São Paulo. “Fiz curso de coquetelaria e consegui ir para o bar do hotel. Mas ficava no almoço. Saíam muitos sucos e às vezes umas caipirinhas”, lembra.

Continuou estudando e acabou contratada para trabalhar no bar do mítico restaurante La Brasserie, do chef francês Erick Jacquin. “Aprendi muito lá. Fazia muitos clássicos. E, tão importante quanto, melhorei meu paladar. Passei a comer direito e a conhecer ingredientes.”

Posteriormente, atuou em bares e restaurante até assumir, em fevereiro de 2016, o MéZ. “Lá pude programar tudo. De criar o cardápio a comprar as taças. Acho que a coquetelaria deve ser honesta, e isso não precisa necessariamente estar em altos preços. Agora é hora de olhar pra frente.”

Uma mulher entre os 50 melhores

Imagine a cena: um boteco no Centro de São Paulo com apenas uma menina. Sem ajuda. Fazendo tudo. O caso aqui não é exatamente de coquetelaria, mas foi a cena inspiradora para a carioca Alice Guedes começar na profissão. “Fiquei muito, mas muito tempo olhando a menina trabalhar. Quando voltei para o Rio fiz um curso e não parei mais”, diz.

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Alice Guedes

Não parou mesmo. A moça, que tem no teatro outra de suas paixões, tem carreira meteórica. Passou, entre outras casas, por Meza Bar e Brigite’s Bistrô antes de, no ano passado, aceitar um convite tentador e trocar as terras cariocas pelas argentinas. Foi para trás do balcão do Florería Atlántico, eleito em 2016 o 49º melhor do mundo (e que apareceu na lista dos 50 mais por três vezes nos quatro últimos anos). “Mudei de país para realizar um sonho. A verdade é que vou por aí, onde a coquetelaria me levar”, resume Alice. Agora, em 2017, Alice está de volta ao Brasil e encara um novo desafio, na equipe de Jean Ponce, no Guarita Bar (SP).

No fundo, Alice não sabe - ou sabe? -, mas a coisa é bem ao contrário. É ela (e Sandra e Talita e Jessica e Adriana e tantas outras) quem leva a coquetelaria consigo, por aí. Ou, como resume Sandra Mendes, irretocável: “mulher persiste e bate o pé. Estamos avançando.”

Está provado que lugar de mulher é onde ela quiser estar – mas, com todo esse talento, se for no bar, atrás do balcão, todos os fãs de bons coquetéis agradecem.

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Sandra Mendes

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