História do gin parte 3 (1638-1726): o gin invade a Inglaterra.

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Esta é a parte 3 da História do gin, contada em 8 capítulos através de uma linha do tempo. No final desta página você encontra link para os outros capítulos.

1638 - A Venerável Companhia de Destiladores

Em 1638, Theodore De Mayerne, o homem que mais tarde foi apelidado de "O Pai da Destilação Inglesa", foi um notável médico e alquimista que juntou-se a Thomas Cademan, médico da Rainha, para fundar The Worshipful Company of Distillers (A Venerável Companhia dos Destiladores), uma das empresas oficiais da Cidade de Londres até hoje. Sua conexões com a família real garantiram um Alvará Real, emitido por Charles I, dando à empresa direitos exclusivos para destilar grãos dentro das cidades de Londres e Westminster e em até 21 milhas ao redor delas. Isso concedeu um virtual monopólio na produção de bebidas destiladas e vinagres. A dupla estabeleceu padrões mínimos de qualidade e de produção que documentavam em um panfleto chamado "O Destilador de Londres". Isso proibiu a venda de "low wines" e especificou que os destilados deviam ser retificados.

Assim como o jenever holandês, o gin inglês passava por dois estágios de produção (na maior parte dos casos, ainda passa). Primeiro os "destiladores de malte" destilavam a cevada maltada e outros cereais para produzir o que são conhecidos como "low wines". Isso tendia a ser uma operação em grande escala e havia somente poucos deles, a maioria situados na grande Londres e representados pela Venerável Companhia dos Destiladores.

No segundo estágio da produção, os destiladores de malte forneciam low wines para "destiladores de compostos" (compound distillers), assim chamados porque eles compunham ou aromatizavam esses destilados antes de diluí-los para o seu teor de consumo. Essas tendiam a ser operações pequenas.

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1652 - Lucas Bols

Lucas Bols, o homem em que a moderna Companhia Lucas Bols é inspirada, nasceu em 1652. Ele tomou conta do gerenciamento do seu negócio familiar durante a Era de Ouro Holandesa. Produtos holandeses, especialmente jenever, viraram moda na Inglaterra depois que o rei holandês William III tornou-se William I da Inglaterra.

Lucas Bols não deve ser confundido com Louis de Bils, filho de um bem-sucedido comerciante holandês, que apoiou o trabalho de Boë Sylvius, um médico cujo o nome é frequentemente conectado ao desenvolvimento do jenever.

Lucas transformou Bols em uma marca internacional e expandiu a sua variedade de licores para mais de 200 receitas, muitas desenvolvidas especificamente para clientes importantes. Depois de sua morte, em 1719, os seus dois filhos, Hermannus e Peter, assumiram o negócio.

Alguns registros sobreviveram a esse período e a primeira prova escrita de que Bols destilou o zimbro é o registro de 1664 de Bols comprando bagas de zimbro.

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1663 - Samuel Pepys

No início dos anos 1600, o gin bruto era destilado nas cidades portuárias de Londres, Plymouth, Portsmouth e Bristol e o seu consumo inicial foi sob o pretexto de seus supostos benefícios à saúde. Na Inglaterra, o gin era bebido como medicamento em vez de algo para ser apreciado. Cerveja ou conhaque franceses eram as bebidas escolhidas da época.

Samuel Pepys detalhou suas funções corporais diárias com tanto detalhe quanto os acontecimentos da época. Em 9 de outubro de 1663, ele registrou o seu sofrimento com a constipação e, no dia seguinte, ainda sofrendo, relata que “Sir J. Minnes e Sir W. Batten (seus colegas de trabalho), me aconselharam a tomar água de zimbro. Sir W. Batten pediu à sua senhora um pouco para mim, uma água forte feita de zimbro. Não sei se foi isso ou alguma outra coisa na minha cerveja dessa manhã, mas eu tive que ir ao banheiro umas duas vezes logo após”. Quando Pepys se refere a "água forte feita de zimbro", ele está, é claro, referindo-se a gin. Seu relato é evidência das qualidades diuréticas do gin, crença muito popular naquela época.

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1689 - William de Orange/Rei William III

Foi a chegada de um holandês ao trono inglês que conduziu à popularidade do jenever na Inglaterra e transformou o gin de um medicamento a uma bebida da moda.

A sucessão de James II foi controversa, mas o apoio do novo Rei de Stewart ao catolicismo o tornou impopular tanto com seus súditos protestantes ingleses como no parlamento. Os oponentes do rei forçaram a sua eventual fuga para a França em 1688 e as importantes figuras políticas inglesas (os Sete Imortais) tomaram o passo sem precedentes de convidar o protestante holandês William de Orange, que era casado com a filha de James, Mary, a invadir e estabelecer uma aliança protestante entre a Inglaterra e a Holanda contra a França católica de Louis XIV.

A frota naval de William era maior do que a Armada Espanhola de um século atrás, mas dessa vez não houve resistência dos ingleses e em 11/02/1689 o Parlamento declarou que, ao fugir do país, James abdicara ao trono e sua filha Mary foi declarada rainha, para reinar em conjunto com William, que adotou o nome de William III.

Isto conduziu a uma monarquia constitucional e a Carta de Direitos (Bill of Rights) , a coroação de William e Mary como Rei e Rainha da Escócia e a batalha irlandesa de Boyne. Mas eu divaguei, vamos voltar ao gin.

Como parte do conflito com a França, William naturalmente procurou enfraquecer a economia do seu inimigo e assim começou o bloqueio inglês contra as mercadorias francesas. Naquele tempo, o conhaque francês era o destilado mais popular da Grã-Bretanha, o rum não havia surgido, o uísque só era apreciado pelos escoceses e pelos irlandeses e a vodca estava a centenas de anos longe de sair da Polônia e Rússia. O jenever estava começando a sair da Holanda e, devido ao gin ser uma bebida baseada em grão, em vez do vinho, ele também poderia ser produzido na Inglaterra. Assim o jenever, por extensão o gin, tomou rapidamente o lugar das cada vez menores provisões de conhaque francês.

Naturalmente, o jenever tornou-se a bebida da moda da corte de William e Mary em Kensington e entre a nobreza, que via o seu consumo como sinal do seu patriotismo ao novo rei e apoio à fé protestante.

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1690 - The Distilling Act

O gin recebeu mais ajuda do parlamento britânico em 1690, quando foi aprovou um "Ato para encorajar a destilação do conhaque e dos destilados de milho", permitindo que qualquer um produzisse destilado de grãos. Este ato teve a intenção de incentivar os destiladores ingleses a preencher a demanda deixada pelo desaparecimento repentino do conhaque francês e para ajudar a financiar a guerra, cobrando um imposto baixo aos destilados produzidos.

Fortuitamente, o novo ato também ajudou os agricultores ingleses, que vendiam os grãos excedentes aos destiladores. Com isso, eles puderam pagar aluguéis mais caros aos proprietários, que dominavam ambas as casas do Parlamento e davam o apoio que o rei precisava para sua guerra.

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1691 - Fundação da destilaria Nolet

A destilaria de jenever da família Nolet foi fundada na cidade holandesa de Schiedam em 1691, por Joannes Nolet. Os holandeses chamam seus alambiques de "ketels", por isso a genever Nolet (e posteriormente a vodka) foram batizadas em homenagem ao "Distilleerketel #1".

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Bank of England

1694 - Tonnage Act

Mais uma vez uma guerra ajudou a ascensão do gin. A Guerra da Grande Aliança (conhecida como a Liga de Augsburgo). Assim como a guerra anterior, essa também deixou o governo britânico sem fundos. Em 1694, isso levou à fundação do Banco da Inglaterra e ao Ato da Tonelagem. A cerveja também foi altamente taxada, o que levou os bebedores ao gin.

Esse ato estabeleceu o conceito de débito nacional e permitiu ao governo cobrar tributos sobre os navios de acordo com a sua tonelagem, sobre a cerveja e outros licores.

A tributação da cerveja dramaticamente aumentou o seu preço, a ponto de haver pouca diferença entre o seu preço e o do gin. Isso encorajou várias pessoas a provarem o destilado aromatizado com zimbro pela primeira vez, que se tornou o preferido de vários.

O ato também permitiu que qualquer pessoa que quisesse destilar álcool legalmente poderia fazê-lo simplesmente publicando um aviso público com 10 dias de antecedência da sua intenção de iniciar a destilação.

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1695 - Fundação da De Kuyper

Famosa por seus jenever e licores, a De Kuyper foi fundada em 1695, quando o recém-casado Petrus de Kuyper criou sua empresa em Horst in Limburg, no sul da Holanda. Originalmente De Kuyper era um fabricante de "kuipen", que são barris de madeira para transportar cerveja e jenever.

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1702 - Brandy Nan

Em 1702, William III foi sucedido pela Rainha Anne, que ganhou o apelido de "Brandy Nan (Freira do Brandy)", devido a sua propensão em beber brandy misturado com chá frio, em uma aparentemente inocente xícara de chá.

A rainha Anne inadvertidamente incentivou a produção de gin através do cancelamento do alvará que Charles I tinha emitido à Venerável Companhia dos Destiladores, que lhes concedia o direito exclusivo de destilar dentro das cidades de Westminster, Londres e 21 milhas ao redor. Centenas de destilarias de rua surgiram e, dentro dessa geração, os moradores das periferias de Londres estavam se afogando com gin. Ao revogar o Alvará da Companhia dos Destiladores, ela também aboliu sua capacidade de garantir qualidade aos destilados produzidos.

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1714 - Primeiro uso da palavra "gin"

O primeiro uso conhecido da palavra "gin" apareceu no trabalho de 1714 "The Fable of the Bees, or Private Vices, Publick Benefits", de Bernard Mandeville. Ele escreveu: “o infame licor, de nome que deriva-se das bagas de zimbro, em holandês, é atualmente, por uso frequente... de uma palavra de tamanho médio reduzida ao um monossílabo, inebriante Gin.”

Mesmo que esse seja o primeiro registro do uso da palavra, é provável que já tenha sido usada coloquialmente há algum tempo antes. Aliás, o termo holandês "jenever" ou "genever" foi emprestado do francês antigo "genevre" (francês moderno genièvre), que significa "árvore de zimbro", que por sua vez, vem do latim "juniperus".

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A destilaria De Kuyper Distiller em Schiedam

1700 a 1770 - o crescimento do jenever

As exportações britânicas severamente subsidiadas de cevada maltada forneceram a base para a rápida expansão da indústria de destilação holandesa, durante o início do século XVIII. A produção de jenever estava centrada em torno da cidade de Schiedam, perto da foz do grande rio Maas, ao Mar do Norte, perto do vasto porto de grãos de Roterdã. Os botânicos necessários para aromatizar o jenever eram fornecidos pela Companhia Holandesa da Índias Orientais, baseada em Amsterdã, a primeira multinacional do mundo.

O número de destilarias em Schiedam aumentou de 34 em 1700, para 121 em 1730. No início dos anos 1770, 85% do jenever produzido em Schiedam era exportado para mercados como Inglaterra, França, Espanha, Índias Ocidentais e Orientais e América do Norte. Nessa altura, em 1881, existiam 394 destilarias em Schiedam. Atualmente, existem apenas quatro.

1720 - British Mutiny Act

O Ato de Motim Britânico, de 1720, liberou os comerciantes envolvidos na destilação de terem que abrigar soldados. O termo "comerciantes" incluía os donos de pousadas, que eram os mais susceptíveis a dar abrigo aos indesejados soldados. Assim, não foi surpresa que essa mudança na legislação tenha sido suficiente para persuadir muitos proprietários a começar a destilar o seu próprio gin, tornando-os comerciantes engajados em destilação e livres de terem que abrigar os convidados indesejados.

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1726 - Daniel Defoe a Companhia de Destiladores

Atualmente mais famoso por seu romance Robinson Crusoé, Daniel Defoe (1660-1731) foi o maior mercenário de seu tempo e extremamente influente. Em 1726, escreveu um panfleto em nome da Companhia de Destiladores de Londres intitulado "Um caso breve dos Destiladores e do Comércio de Destilação da Inglaterra, mostrando até que ponto é interesse da Inglaterra em incentivar o referido comércio".

Nesse documento, ele escreveu que “as pessoas comuns estão agora tão satisfeitas com os destilados de malte, especialmente suas novas composições, que não procuram mais pelo conhaque francês como antes.”

Apesar das afirmações de Defoe, o gin produzido pelos destiladores de Londres na época era ruim em comparação ao jenever holandês. Era comum que os destiladores ingleses do século XVIII adicionassem açúcar, glicerina, grandes quantidades de ervas e coisas muito piores ao seu gin, afim de tornar os destilados de má qualidade mais palatáveis. Alguns destiladores tingiam os seus gins para assemelhar-se ao conhaque.

A qualidade do gin inglês, mesmo ao final do ano de 1720, era duvidosa, mas era barato e prontamente disponível. A população de Londres passou por um período de bebedeira que duraria até o final dos anos 1750.

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História do gin parte 4: Gin Craze em Londres (1728-1794)

Estilos de gin e definições legais
Botânicos do gin explicados
Como é feito o gin?

História do Gin - linha do tempo em 8 partes

História do gin parte 1: Origens e popularização da destilação (Século XII-meados do século XVI).
História do gin parte 2: O primeiro estilo de gin (1572-início do século XVII).
História do gin parte 3: O gin invade a Inglaterra (1638-1726).
História do gin parte 4: Gin Craze em Londres (1728-1794).
História do gin parte 5: Gentrificação do gin e Old Tom (1800-1830).
História do gin parte 6: O surgimento e o domínio do London Dry Gin (1831-1953),/a>.
História do gin parte 7: A morte do gin e sua salvação (1955-1997).
História do gin parte 8: A nova era do gin e os gins da nova era (2000-até hoje).

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