Tiki - vida, morte e renascimento

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Tiki é muito mais do que um tema Faux-Polynesian, é uma cultura. A incrível mistura de bebidas exóticas, decoração, música, roupas e uma atitude descontraída, que se combinam para formar a cultura tiki, surgiu da imaginação de um homem: Ernest Raymond Beaumont-Gantt, quando em 1934 abriu seu pequeno bar, em Hollywood, Califórnia. Só Hollywood poderia inventar o escapismo tiki.

Os Estados Unidos estavam precisando de uma distração. Apesar da Lei Seca ter terminado em 1933, o país ainda se ressentia da Terça Feira Negra de outubro de 1929, quando a quebra da Bolsa de Valores deu início à Grande Depressão.

Ernest Raymond Beaumont-Gantt era um personagem maior do que a vida, bem viajado, particularmente em torno do Caribe. Abriu seu primeiro bar um ano após a revogação da Lei Seca, que era um espaço pequeno em McCadden Place, pertinho do Hollywood Boulevard. Ele o decorou com uma mistura de coisas que havia coletado em viagens (já tinha dado a volta ao mundo duas vezes) e sua própria interpretação romântica de destinos exóticos - uma mistura de Caribe e Pacífico Sul.

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Ernest Raymond Beaumont-Gantt

O bar ganhou o nome de "Don the Beachcomber" e Ernest Gantt virou "Donn Beach", um alter ego que combinava bem com sua personalidade espirituosa.

A Lei Seca sido revogada recentemente, no entanto, rum já era abundante e barato. Rum que combinava com o tema tropical do bar. Devido ao seu tempo na Jamaica, Donn conhecia bem a fórmula do rum punch, o tradicional "um de azedo, dois de doce, três de forte e quatro de fraco", e ele a usou para criar uma brilhante gama de coquetéis de rum na base. Os drinks usavam outros ingredientes que ele tinha experimentado no Caribe, como noz-moscada, canela, cravo, falernum, orgeat, limão, laranja e suco de abacaxi. Como estava no sul da Califórnia, os cítricos frescos eram abundantes.

Ele também entendeu que nome vende um drink, por isso batizava suas criações com nomes como Missionary's Downfall, Vicious Virgin e, sua criação mais famosa, The Zombie. Mas não foram apenas nomes notáveis, os drinks também se destacaram. Os coquetéis de Donn eram perigosamente alcoólicos, muito frutados e muito saborosos. Servido em cascas de coco e abacaxi abertos na hora dentro de seu ambiente tropical simulado, acompanhado de seus contos de viagem e aventuras, ele ofereceu uma experiência muito diferente para quem estava acostumado com a monotonia dos bares da região com os quais competia pela clientela.

Enquanto Ernest Gantt começou o Tiki com seu Don the Beachcomber, foi outro carismático californiano, Victor Bergeron, quem realmente moldou a cultura Tiki e a transformou em algo nacional e, mais tarde, um fenômeno internacional, graças à sua marca Trader Vic.

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Victor Bergeron

Bergeron abriu um estabelecimento originalmente chamado Hinky Dink's, que servia pratos chineses, javanesas e tahitianos, acompanhados por coquetéis tropicais, em grande parte à base de rum, em Oakland, do outro lado da baía de San Francisco. Mas, depois de visitar o Don the Beachcomber e de uma viagem ao Tahiti, ele, assim como Gantt, assumiu um alter ego e, a partir de 1936, Bergeron virou The Trader e seu bar o Trader Vic's, decorado com todos os acessórios Tiki que você possa imaginar, como redes de pesca, peixes empalhados e totens esculpidos em forma de ídolos tiki.

A moda tiki espalhou-se ao longo da costa californiana e, em seguida, por todo os EUA, pois muitos começaram a copiar o exemplo bem sucedido de Donn e Vic. A cultura Tiki estava criada e, juntamente com seus coquetéis exóticos, iria prosperar por mais de 30 anos, servindo como escapismo para o pós-guerra, o mundo da Guerra Fria.

Não eram apenas bares: empresas de todos os tipos adotaram o estilo tiki, incluindo numerosos motéis e hotéis. Tiki era o auge da moda. Bonequinhas de plástico dançando hula em painéis de carro. Cachoeiras e deuses tiki esculpidos adornavam quintais, em casas onde as festas de coquetéis na sala de estar foram substituídas por luaus havaianos.

Martin Cate escreveu um artigo para o Difford's Guide onde ele conta: "Em 1953, Trader Vic foi contratado pela Matson Steamship Company para trazer o seu então famoso Mai Tai para o Royal Hawaiian Hotel, em Waikiki, e na frota de navios de cruzeiro. Logo o Mai Tai tornou-se sinônimo de Havaí e, eventualmente, exibiu (muito para consternação de Trader) um guarda-chuva de papel como decoração. Era uma época de renovada prosperidade para os americanos e as viagens estavam novamente ao alcance da classe média. O Havaí tornou-se um destino muito procurado e de luxo, assim como os resorts do Caribe. O coquetel exótico floresceu por lá. Agora, o coquetel exótico não era apenas associado com terras distantes, era sinônimo de férias. A "bebida do guarda-chuva" era agora o símbolo perfeito de um dia preguiçoso na praia. Antes, tinha sido um símbolo de "vícios selvagens", "mulheres nativas lascivas", uma sensação de perigo vaga, ainda que não ameaçadora. Agora ele também significava diversão nas férias em família. Ele realmente se espalhou para as massas. E foi aí que as coisas se complicaram".

Enquanto os drinques feitos por Donn, Vic e outros bartenders tiki eram saborosos e tinham sabor equilibrado, infelizmente os outros não eram tão bons em fazer drinques, que freqüentemente levavam sete ou mais ingredientes, incluindo suco recém-espremido e decoração elaborada. Concentrados congelados, misturas pré-prontas em pó e coloridas, criaram verdadeiras abominações tiki. O "drink tropical" deixou de ser especial.

Angus Winchester afirmou: "Com a chegada da cena hippie e da Guerra do Vietnã, a caneca Tiki começou a esvaziar ("tiki mug" são as canecas típicas esculpidas para servir drinks, como as da foto do início deste texto). A imagem Tiki tornou-se onipresente, comoditizada e barateada: qualquer alimento poderia ser Tiki com um toque de abacaxi. Quando o "amor livre" virou o caminho da nova geração, os americanos já não precisavam fantasiar sobre saias de grama e mulheres de peito nu. Quando o Vietnã estava queimando, poucos precisavam ver palmeiras e cabanas Tiki. Coquetéis como o Blue Hawaiian deram lugar a Purple Haze (música de Jimmi Hendrix e sinônimo para LSD), enquanto os americanos novos encontravam maneiras novas de fugir da realidade. Os potentes drinks de rum de Donn Beach e The Trader foram substituídos por coquetéis excessivamente doces e produzidos em massa. A cultura Tiki estava condenada ao esquecimento.

A moda Tiki morreu na década de 1960, mas seu renascimento começou nos anos 90, graças a um novo interesse por coquetelaria. Jeff "Beachbum" Berry e Martin Cate foram dois grandes responsáveis pela redescoberta dos drinks tiki. Ambos pesquisaram e escreveram extensivamente sobre tiki e foram evangelistas para o que ele deveria ser e representar. O Latitude 29 de Jeff Berry e o Smuggler's Cove são bons exemplo de como um tiki bar deve ser. Ambos servem criações de Donn e Vic em sua forma original, mas também tem seus próprios drinks.

Se formos citar os grandes evangelistas tiki e seus bares, seria um pecado esquecer de Paul McGee e seu fabuloso bar Lost Lake, em Chicago, e o seu bom e velho Three Dots and a Dash, no centro da cidade. Quando for a Los Angeles, não deixe de visitar um dos bares originais do movimento, o Tiki-Ti. Nós também gostamos muito do Hale Pele, em Portland, Oregon.

No Reino Unido, nossos favoritos são o Trailer Happiness, o Keko Moku e o Hula, todos em Manchester.

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